quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
anjo da guarda
lavra a terra
destinada à sua urgente sepultura
enquanto por cá anda
sofre e sangra
à sombra duma cruz
que lhe saiu em sortes
nas partilhas sucedentes
não lhe tocou grande coisa
é arauto da sua própria morte
é escritor do seu próprio epitáfio
tem apenas a certeza
da vida eterna
prometida desde o berço
coube-lhe o quinhão do osso
que toda a vida roeu
ironicamente
perdeu os dentes
é fiel ao seu carrasco
é leal à sua sina
sabe que do pó veio
e ao pó voltará
e sonha com anjos da guarda
que nunca lhe compareceram
mas que, confia,
o escoltarão na sua derradeira viagem.
(c) Carlos Clara Gomes
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