quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

soldado da fé



vou de lado e de bruços
com alabardas e chuços
dou cabeçadas nas vidas
sou de deus o braço armado
sou destino e sou fado
quero a terra prometida

sou eu! quem invade as areias
quem assalta as ameias
e impõe a fé de cristo
sou eu!... profeta de mil desgraças
armaduras e couraças
tanta coisa que só visto!...

se eu ando meditabundo
sou um profeta soturno
que escreve a sangue e pus
queimo no fogo do inferno
quem verão ou no inverno
não adora minha cruz


sou eu!... quem esventra as donzelas
quem destrói as coisas belas
tudo em nome do senhor
sou eu!... justiceiro e algoz
da nascente até à foz
cada vez mais e pior!..

do alto do meu cavalo
ando firme e não resvalo
sepulto comunidades
dos infiéis faço alvos
- e só assim serão salvos -
passo-os a fio de espada

sou eu!... obreiro da nova guerra
plantada sobre a terra
meu devir é ser soldado
sou eu!... quem semeia tempestades
defino novas verdades
sou de cristo, sou cruzado...

(c) Carlos Clara Gomes

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

o pai nosso dos párias de deus




pai nosso que estais no céu
enquanto nós sofremos
neste vale de lágrimas
criado por ti,
santificado seja o vosso nome
assim na terra onde morremos
como no céu
para onde,
a cada minuto que passa,
um de nós é convocado

o pão nosso de cada dia nos dais hoje
mas não impedis os agressores
de no-lo roubarem

perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós,
com infinita paciência e humildade,
perdoamos a quem nos tem ofendido
violado,
queimado,
trucidado,
torturado
perdoai-nos pois, senhor
pois grandes pecadores
devemos ser
para só assim merecermos
o teu céu


mas por favor, senhor,
por favor:
deixai-nos cair na tentação
de termos forças
para nós mesmos
nos livrarmos do mal

ou então,
mandai as vossas legiões
de anjos guerreiros
que, nós,
sinceramente,
já estamos cansados
de ver morrer nossos filhos,
de ver o seu sangue regar o solo
que nos elegestes como terra mãe
enquanto tu, deus magnânimo,
omnipresente
parece só saberes do que cá se passa
quando ligas a tv...

leva em conta, ao menos,
os relatos
dos teus filhos inocentes,
aqueles que convocaste para junto de ti
sem que lhes desses
sequer
a oportunidade 
de saber pecar... 


(c) Carlos Clara Gomes

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

si vis pacem parabellum


bate-se pela honra nas batalhas
contra os inimigos da fé
que moram na cidade reclamada
por várias fés como altar
de cada uma delas

busca o santo lenho e o graal
por onde foi bebido o sangue ritual

e também os despojos de guerra
que lhe caberão no saque adivinhado

daí, como lembrança,
alguma pedra preciosa
será encastrada no bastão
que adornará sua velhice
de heróico guerreiro
e as memórias
de meninas violadas
no assalto à cidade santa

crê, deveras crê
que só com sangue honrará
o sangue que foi derramado
pelos seus

por seu turno,
os agora por ele sangrados
também acham o mesmo:

também eles acreditam
que o sangramento
é a única forma de honrar
os seus queridos mortos
e as suas queridas meninas violadas

e assim vão procedendo,
varando o tempo
e mais tempo

sempre com sangues
fazendo pazes
em nome de fés
de que já não se lembram
como e quando surgiram

até que a paz da morte
os junte

para sempre.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"


onde estavas tu?

onde estavas tu
quando as botas cardadas
soaram nas ruas do guetto?

onde estavas tu
quando separaram
as crianças das mães
e os amantes
que tanto amor
tinham para dar?

onde estavas tu
quando nos meteram
sobre os carris
que nos levaram
para o duche da morte?

onde estavas tu
quando a mãe
teve que sufocar o bebé
contra a sua própria mama
para que o choro
não fosse escutado
pelos algozes?

escutaste, ao menos,
esse choro mudo?

ou estavas ausente e surdo
criando outro mundo,
talvez um mundo mais justo,
um mundo criado
por um deus mais justo
do que quando nos criaste?

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"

domingo, 31 de janeiro de 2016

alma fugidia


e o castigo
fere mais por dentro
do que por fora

pois o castigado sabe
que a pele do corpo
se regenera

já o mesmo
não se pode dizer
da pele da alma,
uma pele tão fina
e tão translúcida
que ameaça romper-se
até com uma alegria

é:
a pele da alma tem muitos poros,
são buraquinhos pequeninos
por onde foge,
etérea

e nada agarra
uma alma fugida.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"

sábado, 30 de janeiro de 2016

aqui jaz

aqui jaz
o desespero pela espera
a mutilação da alma nua
o desencanto pela manhã sonhada
o cansaço pela presença ausente
a solidão no meio do rebanho
o temor da sede sem fim
a agonia de morrer na praia
a canção inacabada sobre a mesa
a voz embargada no discurso
a audácia que existia e que se foi
a hesitação no ponto final
o sentir que já acabou
o que ainda nem começou
a fome do além
a certeza no incerto
o imperfeito como modelo
a despesa por pagar
a alma por lavar
a lágrima por verter
o desejo por consumar
o ruidoso silêncio da cidade
a temerária esperança no horizonte.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"





mãos


e sente que do outro lado,
no último e decisivo momento,
alguém lhe estenderá a mão amiga

a mão dum alguém
que nenhum algo
poderá alguma vez destruir,
poderá alguma vez macular

porque essa é
a única e inabalável fé
que o prende:

a fé nessa mão,
mais do que
a mão de alguém,
aquela mão cujos dedos
se entrelaçam nos seus
sempre que o sino
toca a rebate,
mesmo que o sino
toque a finados.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

morte e amor. amor e morte


a morte,
essa entidade que não existe
é uma prostituta sem cabaré
vagueando pelos medos
que habitam os corações
que deixaram de bater

o amor,
essa entidade que não existe
é um proxeneta sem puta
vagueando pelas valentias
que habitam os corações
que nunca souberam parar de bater.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

a visita da divindade


podias ter trazido
nas tuas vestes aladas
um cortejo de perdões
e bem-aventuranças

sabes?
raramente nos visitam
divindades

ou, se o fazem,
fazem-no incógnitas,
a coberto do anonimato
como as socialites
que se escondem atrás
de óculos escuros

mas sobrevém sempre
o receio de serem topadas

da próxima vez
agradecemos
que avises com tempo

gostaríamos
de te receber
com uma refeição quente.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"

profaníssima trindade

quem inventou o castigo
também inventou o prazer
para que pudesse haver pecado

é a dinâmica
desta profaníssima trindade
que tem o homem
no seu centro de gravidade.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"

alma

e no entanto, ela move-se
a despeito do racionalismo
que não a encontra
na ponta do bisturi.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela" 

juízo final


a dívida - qualquer dívida - existe

sabe que terá de ser paga

e acredita que a pagará,
longe da usura dos homens
e perto, bem perto,
a coberto da usura divina
que tudo cobra,
em nome da cobra original,
em nome duma justiça
de que se arroga executora

pode ser que,
chegado o momento,
um deus misericordioso
o indulte
ou lhe faça um desconto qualquer.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"

nas asas dum anjo


quer um dia
poder escrever um poema
que comece por
"nas asas dum anjo"

sente que um anjo o protege
apesar das maleitas
que a vida lhe destinou em sina

e, por sentir isso,
avança determinada
e com a ousadia de quem sabe
que alguém a amparará se titubear

mas não claudica:

não entregará seu estandarte
no qual acredita piamente,
o qual suporta com os dedos sangrados
das suas mãos de mulher

e com os lábios gretados
de tantos beijos que não beijou

porque o anjo,
protegendo-a com a sua presença,
sempre lhe impediu a sacra intimidade
dum beijo apaixonado
e pecaminoso.

(c) Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"

transportes fluviais caronte & cia


sabe muito bem
que tem garantida a viagem

a barca já está aparelhada
desde o seu nascimento

naquela nau embarcará
mais tarde ou mais cedo

tortura-o não saber 
quando

tortura-o não saber 
quanto ainda pode fazer,
quanto ainda pode amar,
quantas flores poderá colher
sem que morram, exangues,
nas suas mãos que tanto desejam colher.

(c) Carlos Clara Gomes

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

quando surge a sombra

quando surge a sombra
trazida pelo final da tarde
e a pedra transpira os segredos
guardados na espiral do tempo,
o burel do hábito pica o corpo

cá fora, clausuras outras
fazem carreira na amargura
da gente que busca a ilusão
duma fé que tudo liberta

mas a pedra, inamovível,
traz consigo a carga
duma irrecusável ambição
de conseguir que a luz
não se confunda
com o fogo eterno,
em tudo diverso
daquele fogo que prometeu
prometeu roubar aos deuses.

(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"

Imagem: Dante e Virgílio Entre os Falsificadores, por Gustave Doré


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

orfãos de fé


e quando, subitamente,
constata que
os companheiros de fé
secretamente
aderiram à fé do ouro
em vez de à fé no outro?

cai o mundo lá bem dentro dele

mas eleva-se a rebeldia
e o desespero

e, através da muralha
que divide os homens,
há uma mão que se lhe estende,
amiga e quente

e essa mão também está
carenciada de fé

e ambas as mãos sentem
uma estranha nova fé
que tudo move,
a das coisas simples,

a fé nas coisas de dentro de nós.

(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "O Rochedo Mas uma Janela"


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

sincretismo


a crença que me impuseram
não foi a que me coube em sortes
naquela terra onde nasci
e donde me arrancaram,
aquela terra-teta-de-mãe

aos mesmos entes rezo, porém:

aos meus.

agora uso os altares
dos que me prenderam
em nome da sua fé

para rezar à minha,
àquela única
a que eu sei rezar.

(c) Carlos Clara Gomes

Gravura: "Calceteiros", de Jean Baptiste Debret (1824)

promessa


desde que foi parido
faz por ignorar
a verdade insofismável

e distrai-se com promessas
duma terra onde viverá
fora da terra
depois de passar
os portões da verdade

e crê
que será um dos destinados
ao éden renovado
quando, enfim,
se libertar de culpas
e outras pedras
que lhe pesam na sacola
que carrega desde menino.

(c) Carlos Clara Gomes




quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

cava

cava

cava fundo

encontra-te a ti mesmo
no pó que já foste

um dia voltarás para aí

reza, ora,

ora a cada hora
em cada noite, manhã ou tarde

para que tarde o momento,
aquele tal momento
que finges que não existirá para ti

e depois desse momento,
quando fores apenas tu
sem o teu corpo mortal?

de que forma sofrerás?

a penumbra que te envolverá
irá deixar-te cego para amares?

ou, por seu turno,
libertar-te-á de alguma coisa?

cava

cava fundo

cava sempre.

(c) Carlos Clara Gomes


anjo da guarda


lavra a terra
destinada à sua urgente sepultura

enquanto por cá anda
sofre e sangra
à sombra duma cruz
que lhe saiu em sortes

nas partilhas sucedentes
não lhe tocou grande coisa

é arauto da sua própria morte

é escritor do seu próprio epitáfio

tem apenas a certeza
da vida eterna
prometida desde o berço

coube-lhe o quinhão do osso
que toda a vida roeu

ironicamente
perdeu os dentes

é fiel ao seu carrasco
é leal à sua sina

sabe que do pó veio
e ao pó voltará

e sonha com anjos da guarda
que nunca lhe compareceram
mas que, confia,
o escoltarão na sua derradeira viagem.

(c) Carlos Clara Gomes



o outro fio da espada já se afia


dentro do baú
a herança de continentes exauridos
e a glória dum deus fétido
para cevar ainda mais
algibeiras de monarcas
e de banqueiros mandantes

saem à liça povos vários
resgatando a verdade
fechada a cadeado
e arredia dos livros
que cronistas rabiscaram
a soldo dos poderosos

paira a sombra
do santo lenho
imposto em areias
que clérigos e nobres
julgaram ser terra firme

mas, corsária,
a culpa tão querida
de mãos que no peito batem,
exorcizando-a,
vem à tona
simplesmente

e ajustará contas
com europas

e desta vez o ajuste
não ficará por conta de espelhos
nem de miçangas
trazidas de outro continente

os escravos acertam contas
com a fé que os pariu
usando a espada
que os trouxe
submissos.

(c) Carlos Clara Gomes



clausura


que divindades trazem,
arrogantes,
almas enclausuradas
em corpos de dor?

no afã do não-pecado,
teme-se o medo
com ameaças grotescas
de fogos sem fim

como se não fosse
evidente
que todo o fogo
aquece
e
ilumina.

(c) Carlos Clara Gomes

espinhos


a noite imensa
cai sobre as coxas
das ataduras proibidas
e das carnes em geral

um epitáfio soez
escreve a palavra pecado
no coração dos puros
que entendem doutra forma
a palavra castidade

por ali,
pela fresta aberta
por onde a luz da lua entra
envergonhada,
uma imensidão de desejos
invade a proibição imposta
pelos códices

tesões insubmissos
subvertem a lei sagrada
que alguém,
em nome do sagrado,
escreveu com letra profana.

(c)  Carlos Clara Gomes